
Me enganei ao pensar que te conhecia; ao, no auge da minha prepotência, acreditar que minhas mãos, ínfimas, posicionadas em formato de concha, seriam o suficiente para segurar o mar que você é. De burro que sou, esqueci que uma concha à beira mar, é só uma concha entre milhares de outras. Era eu quem te pertencia e não o contrário. Talvez fosse pelo som do teu mar que eu guardava ali dentro e levava aos ouvidos para sentir tua imensidão inatingível de perto. Mas descobri ontem, num portal de curiosidades imbecis que o labirinto em espiral da concha produz o efeito de uma caixa de ressonância, amplificando os sons ao redor, um efeito parecido com o eco. Eu não queria descobrir. Era a última coisa que ainda te ligava a mim. Rodei por aquários, poças quaisquer, lagoas minúsculas e só assim, entendi a magnitude do teu oceano, das águas que te uniam. Mas seria muito egocêntrico imaginar que enquanto eu rodava o mundo, você esperaria o momento certo, para desaguar só em mim. E eu te perdi. Eu não sei. Eu te confundi e o universo não perdoa quem faz isso com um mar. Mas você me confundiu também e pra você, a conta nunca vai chegar por causa da sua grandeza. Enquanto você me arrastava pro fundo, em meio aos sentimentos gritantes e absurdamente encantadores que você nutria, eu só pensava no quanto não sabia nadar. Você sabe, Capitu, sempre fui velejador amador. Eu nunca disse que era bom nisso, eu só metia a cara, porque nunca tive medo da força do vento, das tempestades grotescas, de qualquer outro mar; meu único medo SEMPRE foi você. Porque eu tinha o mundo nas mãos e você me tinha nas suas. E mesmo que eu gritasse para os sete mares, para o universo inteiro ouvir o meu amor sem limites, ainda seria só mais uma gota no teu oceano profundo e intenso. E eu te perdi. Ainda sou o amor da sua vida, posso ver. E se antes, meu ego inflava e me bastava saber que você nunca iria me esquecer, enquanto eu olhava atraindo quem se arriscasse a mergulhar de verdade, como eu sempre fui incapaz de fazer, no seu mar, hoje não basta mais. Só dói. Tá nos seu olhos escrito que fui seu céu e astros e isso ninguém vai roubar, mas e daí? Tá escrito no universo dos teus olhos que ainda sou sua constelação de estrelas mais brilhantes mas sei que isso significa que é porque morreram, sou teu meteoro mas a última colisão diz que não damos certo, porque você ainda tem as marcas. Sou tua poeira estelar e me desfiz no espaço, ficando invisível para você. E ainda sabem que você passou por aqui também, dá para ver. Em meio às palavras manchadas pela água que inundou os papéis dos meus sentimentos. Em meio a areia que se encaixa nos meus olhos propositalmente para lembrar que eu já estive aí e hoje não estou mais. E arde tanto, Capitu, arde demais. E eu choro que é pra lembrar que quando eu estava me deixando levar um pouquinho por você, submerso, eu nem podia saber que estava chorando. Minhas lágrimas se confundiam com as tuas águas e teu amor fazia bolhas ao redor da minha dor. Se antes me agradava saber que entre banhistas, marinheiros e capitães de navios que poderiam, surgir, eu ainda seria o teu amor, hoje só dói. Porque a gente cumpriu a lenda outra vez: o mar e o céu se apaixonaram de verdade e apesar da infinitude, estamos fadados à separação.
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